A fachada como Sistema

Lições da obra de Artacho Jurado

Leitura técnica 05

Recentemente, assisti ao documentário Artacho Jurado: Sinfonia de um Arquiteto, dirigido por Teresa Eça e Pedro Gorski. O filme me levou a revisitar alguns de seus edifícios em São Paulo — obras que já faziam parte das minhas referências desde a formação acadêmica, mas que, desta vez, observei a partir de outro repertório.

Depois de anos trabalhando com fachadas, desempenho e interfaces construtivas, meu olhar foi naturalmente direcionado aos detalhes: bordas de laje, floreiras, brises, mudanças de plano, juntas e soluções de escoamento da água.

Artacho Jurado não tinha formação em arquitetura ou engenharia. Ainda assim, seus edifícios, construídos no início da verticalização de São Paulo, revelam uma percepção notável sobre materiais, movimentações estruturais e descontinuidades construtivas.

Mais de seis décadas depois, elementos presentes em suas obras — abas de laje, brises, floreiras, varandas e fachadas mais profundas — voltaram a ocupar posição relevante na arquitetura contemporânea. Sua retomada amplia as possibilidades de composição, sombreamento e relação entre interior e exterior. Também relembra que esses elementos não são apenas recursos formais: recebem água, transmitem cargas, movimentam-se e exigem fixação, proteção e manutenção.

A fachada como espaço e sistema

Nas obras de Artacho Jurado, a fachada não se limita ao plano que separa o interior do exterior. Varandas, floreiras, brises, caixilhos e elementos vazados formam sucessivas camadas entre o edifício e a cidade.

Esses componentes criam sombra e profundidade, interferem na incidência da chuva e da radiação solar e modificam tanto a percepção exterior quanto a experiência de quem ocupa os apartamentos. A fachada deixa de ser apenas imagem e passa a constituir espaço.

Essa riqueza formal, entretanto, está diretamente relacionada ao comportamento construtivo. Cada avanço, reentrância ou componente acrescentado ao plano principal cria novos encontros entre materiais, novas condições de exposição e novas necessidades de compatibilização.

No Bretagne, por exemplo, juntas horizontais chanfradas são assumidas como linhas da composição. Além de organizar visualmente a fachada, reconhecem a necessidade de interrupção de grandes superfícies. Concreto, alvenaria, argamassas e revestimentos respondem de maneiras diferentes às deformações estruturais e às variações de temperatura e umidade. Quando essas diferenças não encontram formas de acomodação, podem surgir fissuras, destacamentos e falhas de estanqueidade.

A lição não está em copiar os detalhes originais, mas em compreender que a movimentação faz partedo edifício e precisa encontrar resposta no projeto.

Brises e abas: a técnica por trás da forma

Os brises de Artacho Jurado eram executados em elementos pré-moldados de concreto, assentados e unidos com argamassa. Preenchiam grandes vãos, filtravam a luz e criavam superfícies vazadas com forte presença arquitetônica.

Hoje, muitos brises são metálicos e dependem de subestruturas, consoles, chumbadores e ligações mecânicas. A intenção arquitetônica pode ser semelhante, mas o sistema construtivo é outro. Sua concepção precisa considerar cargas de vento, movimentações térmicas, proteção contra corrosão, base de fixação, sequência de montagem e acesso para inspeção ou substituição.

O nome do elemento permanece, mas sua solução técnica precisa acompanhar os materiais e processos atuais.

As abas de laje também aparecem com frequência nas obras observadas. Elas reforçam as linhas horizontais, criam sombra e conferem profundidade à fachada. Em muitos casos, são revestidas e apresentam bordas com pequenos ressaltos e pingadeiras, incorporados ao próprio desenho para interromper o retorno da água à face inferior.

O desempenho de uma aba, porém, não depende apenas da pingadeira. Resulta do conjunto formado por caimento, impermeabilização, encontros laterais, juntas, revestimentos e acabamento.

Nas soluções contemporâneas, superfícies claras e lisas produzem uma expressão arquitetônica leve, mas tornam mais perceptíveis manchas de escorrimento, deposição de partículas e colonização biológica. Por isso, a pintura não deve ser especificada apenas pela cor. A preparação da base, a regularização, o selador, a tinta e as camadas complementares de proteção precisam ser compatíveis com a exposição à chuva, à radiação solar e aos microrganismos.

Sistemas com menor absorção de água, maior resistência ao intemperismo e facilidade de limpeza podem contribuir para a conservação da superfície. Ainda assim, nenhum acabamento substitui uma geometria capaz de conduzir corretamente a água.

Projetar uma aba significa também projetar seu envelhecimento.

Floreiras: concepção, segurança e manutenção

No Edifício Cinderela, as floreiras nascem da própria concepção das lajes e ocupam extensivamente as bordas das varandas. Com dimensões capazes de receber terra, drenagem e vegetação de porte significativo, elas participam tanto da estrutura quanto da experiência de morar.

Mais de seis décadas depois, continuam determinantes na identidade do edifício. A vegetação interrompe a repetição dos pavimentos, aproxima a natureza do cotidiano e transforma a relação entre interior, fachada e paisagem.

Em projetos atuais, as floreiras podem estar incorporadas à estrutura ou funcionar como componentes independentes, próximos a uma espécie de mobiliário de fachada. Neste segundo caso, sua instalação exige atenção ao peso próprio, à terra saturada, à vegetação adulta, às ações do vento, à durabilidade das fixações e à possibilidade de substituição.

Enquanto os guarda-corpos possuem referências normativas específicas para cargas e segurança de uso, as floreiras de fachada ainda não contam com um enquadramento igualmente direto. Isso torna ainda mais importante definir com clareza as condições de apoio, fixação e utilização.

Também é necessário pensar quem cuidará da vegetação. Algumas floreiras têm papel importante na composição exterior, mas são pouco acessíveis aos moradores. O projeto deve prever como ocorrerão irrigação, poda, reposição de espécies, limpeza dos drenos e inspeção da impermeabilização e das fixações. Quando o acesso não pode ser realizado de forma segura pelo usuário, a manutenção precisa ser incorporada à operação do edifício.

A vegetação só permanece como qualidade arquitetônica quando faz parte de um sistema realista de uso e conservação.

Obras que continuam ensinando

Levei o lápis comigo, não para fazer um exercício de desenho de observação, mas para compreender, por meio do desenho, alguns aspectos que me chamaram a atenção durante a visita ao Bretagne: a inclinação dos caixilhos, o encontro de uma floreira com a laje, a projeção de uma aba e a fachada como convite à paisagem exterior.

Observar uma obra depois de décadas de uso permite perceber o que permaneceu, o que envelheceu e como as decisões construtivas responderam à passagem do tempo.

A retomada contemporânea de brises, abas, floreiras e fachadas mais profundas mostra a permanência dessas estratégias no repertório arquitetônico. As obras de Artacho Jurado lembram que sua força não está apenas na expressão formal, mas na integração entre concepção arquitetônica e comportamento construtivo.

Mais do que uma superfície, a fachada aparece como sistema.

Croqui – Edifício Bretagne
Análise interpretativa da fachada

RYOS | Leitura Técnica da Envoltória | 2026

Referência audiovisual

Artacho Jurado: Sinfonia de um Arquiteto (2026)
Documentário dirigido por Teresa Eça e Pedro Gorski.

Fotografias e croquis

Rosana Yoshida.

Fachadas . Envoltória . Compatibilização técnica . RYOS

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